O corpo que muda mais rápido que o hábito – opinião de Karina Milaré no CB

25 de agosto de 2026

O corpo que muda mais rápido que o hábito

Contexto: o artigo abaixo, de autoria de Karina Milaré, CEO da Reds Research, foi publicado no Correio Braziliense. O texto discute o fenômeno das canetas emagrecedoras no Brasil à luz dos dados de obesidade do país e de uma pesquisa da própria Reds com usuários dessas medicações, defendendo que a perda de peso é apenas o início de uma mudança que só se sustenta se vier acompanhada da construção de hábitos duradouros.


Sentir-se incomodado com o próprio corpo deixou de ser um desconforto individual para virar um dado de massa. Os números do IBGE são claros: em 2019, 60,3% dos adultos brasileiros estavam com excesso de peso — cerca de 96 milhões de pessoas —, e uma em cada quatro pessoas com 18 anos ou mais já era obesa, o que representa 41 milhões de brasileiros. Em apenas 17 anos, a taxa de obesidade adulta mais do que dobrou, saindo de 12,2% para 26,8%. E esse desconforto não é distribuído de forma equilibrada: entre as mulheres, a obesidade (30,2%) segue consistentemente acima da observada entre os homens.

Por trás de cada ponto percentual está uma pessoa que, muito provavelmente, convive diariamente com um incômodo em relação à própria imagem. Não é à toa que as canetas emagrecedoras tenham se espalhado tão rapidamente: elas surgem como resposta a um peso que pesa tanto no corpo quanto na cabeça.

Uma pesquisa conduzida pela Reds com mil usuários dessas medicações mostra que a motivação por trás dessa busca é legítima — as pessoas querem se sentir bem com o próprio corpo — e que, em grande parte, esse objetivo é alcançado. O percentual de pessoas satisfeitas com o corpo salta de 17% para 61% depois do início do tratamento. A sensação de estar cuidando bem da própria saúde sobe de 41% para 74%. Ao mesmo tempo, recuam a culpa ao comer e a ansiedade relacionada ao peso.

Os efeitos vão além da balança: 68% dos entrevistados dizem ter passado a cuidar mais, ou muito mais, de si mesmos, e 63% se matricularam em uma academia. Esse é o lado positivo do fenômeno, e ele merece ser reconhecido. O movimento que começa com a perda de peso costuma puxar consigo uma reorganização mais ampla da rotina, dos gastos e do bem-estar. A pesquisa identifica queda no consumo de ultraprocessados, aumento do consumo de alimentos in natura e ricos em proteína, e maior frequência em cuidados com a pele e o corpo. Há, portanto, uma mudança de comportamento real e mensurável.

Só que emagrecer é apenas o começo — não o ponto final. E é aqui que os dados de estudos internacionais acendem um alerta. Pesquisas sobre os análogos de GLP-1 mostram que, quando a medicação é interrompida, o peso costuma retornar rapidamente: em um dos ensaios mais citados sobre o tema, os participantes recuperaram, em média, dois terços do peso perdido em cerca de um ano. Cerca de metade dos pacientes abandona o tratamento já no primeiro ano de uso, e a literatura científica é consistente ao mostrar que mesmo quem manteve dieta e exercício voltou a ganhar peso depois de parar de usar a medicação.

Essa constatação é incômoda, mas necessária. A medicação entrega o resultado — mas não entrega, sozinha, o hábito. Quando o tratamento termina sem que a relação da pessoa com a comida, com o movimento do corpo e com sua própria imagem tenha sido de fato reconstruída, o organismo tende a reverter o processo: é o efeito sanfona de sempre, agora em versão farmacológica. Não por acaso, na pesquisa da Reds, quase ninguém relata ter encerrado o tratamento — a manutenção do peso continua dependendo da medicação.

Por isso, vale distinguir duas ideias que costumam se confundir. Uma é a busca pelo chamado “corpo ideal” — um padrão estético estreito, que recai principalmente sobre as mulheres e que nenhuma medicação resolve, porque o problema nunca esteve no corpo em si, e sim nesse padrão. A outra, bem diferente, é a construção de um estilo de vida sustentável, em que alimentação, atividade física e saúde mental deixam de ser um projeto pontual e passam a fazer parte da rotina.

As canetas emagrecedoras podem funcionar como uma porta de entrada poderosa para esse segundo caminho. Elas oferecem o impulso inicial, aliviam a culpa e devolvem disposição e autoestima — uma janela de motivação valiosa. Mas essa janela só se converte em mudança duradoura se for aproveitada para construir hábitos capazes de se sustentar quando a medicação não estiver mais presente.

No fim, a mensagem é de equilíbrio. O fenômeno é real e produz transformações concretas na vida de milhões de pessoas — reconhecer isso é uma questão de honestidade. Mas tratá-lo como uma solução definitiva seria ignorar o que os próprios dados mostram. Sentir-se bem com o corpo é um direito, e pode ser um motor saudável de mudança. O corpo ideal, no entanto, não é aquele que se encaixa em um padrão — é aquele que se mantém sem depender de uma dose semanal.


Artigo original de Karina Milaré, CEO da Reds Research, publicado no Correio Braziliense. Fonte: correiobraziliense.com.br