Rotulagem frontal de alimentos: o que é e como testar

3 de novembro de 2026
Rótulo

Entenda a lupa “ALTO EM”, as regras da Anvisa, a revisão prevista para 2027 e como testar a legibilidade e a percepção do consumidor antes de imprimir uma embalagem.

Resumo rápido

  • A lupa “ALTO EM” é obrigatória no Brasil desde 9 de outubro de 2022, conforme a RDC nº 429/2020 e a IN nº 75/2020.
  • O alerta é exigido quando o alimento atinge determinados limites de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio.
  • A Anvisa incluiu a revisão da rotulagem nutricional na Agenda Regulatória 2026-2027.
  • Estudos brasileiros mostram que o efeito da lupa sobre a intenção de compra diminui com o tempo e pode ser enfraquecido pelo uso de outros claims na embalagem.
  • Testar a legibilidade e a percepção do consumidor antes da impressão ajuda a evitar retrabalho e perdas de preferência na gôndola.

O que é a rotulagem frontal e a lupa de advertência

A rotulagem nutricional frontal, conhecida internacionalmente como FOP (front-of-pack), reúne informações nutricionais exibidas na face principal da embalagem para alertar sobre o excesso de nutrientes críticos.

No Brasil, esse alerta é representado por uma lupa preta com a expressão “ALTO EM”, seguida da indicação do nutriente em excesso. A exigência está prevista na RDC nº 429/2020 e é complementada pela IN nº 75/2020, que estabelece os limites nutricionais, os modelos gráficos e os requisitos técnicos de aplicação.

A lupa é obrigatória quando o alimento atinge os seguintes valores:

Nutriente Sólidos e semissólidos (100 g) Líquidos (100 ml)
Açúcares adicionados 15 g ou mais 7,5 g ou mais
Gorduras saturadas 6 g ou mais 3 g ou mais
Sódio 600 mg ou mais 300 mg ou mais

Conforme a composição, a embalagem pode apresentar um, dois ou três alertas.

A presença da lupa também interfere na comunicação da marca. Alimentos com advertência não podem apresentar claims nutricionais relacionadas ao nutriente sinalizado. Entretanto, outros claims continuam permitidos, desde que respeitem a legislação. Assim, um produto “ALTO EM açúcar adicionado” pode destacar, por exemplo, que é fonte de fibras.

Essa possibilidade merece atenção porque mensagens positivas podem influenciar a interpretação do consumidor e reduzir o impacto do alerta.

O que a Anvisa está revisando para 2027

A revisão da rotulagem nutricional dos alimentos embalados foi incluída como tema 3.26 da Agenda Regulatória 2026-2027 da Anvisa, aprovada pela Portaria nº 1.484, de 15 de dezembro de 2025.

A proposta busca harmonizar as regras brasileiras com as do Mercosul e consolidar a RDC nº 429/2020 e a IN nº 75/2020 em um novo texto regulatório.

Segundo a apresentação da Anvisa no diálogo setorial de setembro de 2025, a revisão contempla mudanças na regulamentação da rotulagem nutricional frontal. Outros temas da agenda também podem afetar a face principal das embalagens, como:

  • Tema 3.5: requisitos de rotulagem para corantes e aromatizantes.
  • Tema 3.1: declaração quantitativa de ingredientes.
  • Tema 3.2: critérios para a declaração “Não contém glúten”.
  • Tema 3.4: uso de tecnologias, como QR Codes, na rotulagem.

A revisão das regras de edulcorantes também merece acompanhamento, especialmente diante da reformulação de produtos motivada pela implementação da lupa de açúcares adicionados.

A publicação conjunta das alterações de rotulagem está prevista para o final de 2027. Portanto, as empresas devem acompanhar as consultas públicas e avaliar antecipadamente os possíveis impactos sobre suas embalagens.

Como o consumidor interpreta a lupa na gôndola

O consumidor dedica poucos segundos à escolha de um produto e utiliza atalhos visuais como marca, cores, símbolos e alegações nutricionais. Nesse contexto, a lupa pode influenciar a intenção de compra, mas seu efeito não é necessariamente constante.

Uma pesquisa da Embrapa, realizada em dois estudos online com 1.762 participantes, identificou aumento na percepção dos alertas nutricionais ao longo do tempo. Entretanto, diminuiu a frequência de participantes que relataram ter mudado suas escolhas após observar a lupa: de 52,4% no primeiro estudo para 45,4% no segundo.

Três fatores ajudam a explicar esse comportamento:

  1. Efeito halo dos claims nutricionais

Mensagens positivas, como “fonte de fibras”, podem atenuar o impacto negativo da lupa. Um estudo da UNIFESP observou que, mesmo com a mesma advertência nutricional, produtos acompanhados de claims positivos despertavam maior interesse.

  1. Familiaridade com o símbolo

Segundo pesquisa realizada recentemente pela Reds com 2000 pessoas em todo o Brasil, 90% dos consumidores percebem a lupa nas embalagens ao realizar suas compras. Sendo que 75% já trocaram de produto na gôndola por conta do aviso.

Uma pesquisa da UFLA também identificou que os consumidores consideram a lupa útil, mas sua eficácia pode diminuir devido à familiaridade com o símbolo e à influência de outras informações da embalagem.

  1. Reconhecimento sem compreensão

Estudo da UNESP mostrou que muitas participantes já haviam visto o símbolo, mas não tinham certeza do seu significado. Isso demonstra que reconhecer visualmente o alerta não significa necessariamente compreender sua mensagem.

A quantidade de alertas também influencia a preferência. No estudo da UNESP, a intenção de compra foi maior para produtos sem advertências ou com apenas um nutriente em excesso. A categoria também importa: produtos associados a uma alimentação equilibrada, como iogurtes, cereais e barras, podem sofrer maior impacto do alerta do que alimentos considerados indulgentes.

Como testar a legibilidade e a percepção do rótulo

A avaliação de uma embalagem com rotulagem frontal deve considerar duas dimensões: conformidade técnica e percepção do consumidor.

Um rótulo pode cumprir todas as exigências da Anvisa e, ainda assim, perder competitividade na gôndola porque a lupa ocupa espaço antes destinado aos principais atributos da marca. Da mesma forma, uma embalagem visualmente atraente pode apresentar problemas de conformidade.

Checklist técnico

Antes da impressão, recomenda-se verificar:

  1. Enquadramento: confirmar se o produto atinge os limites estabelecidos no Anexo XV da IN nº 75/2020, considerando 100 g ou 100 ml.
  2. Posicionamento: verificar se a lupa está na face principal e segue a orientação exigida.
  3. Proporção: utilizar o modelo correspondente à área do painel principal, conforme a IN nº 75/2020.
  4. Claims: eliminar declarações nutricionais relacionadas ao nutriente sinalizado.
  5. Tabela nutricional: conferir os valores declarados e as tolerâncias previstas na regulamentação.
  6. Teste físico: imprimir a embalagem em escala real e avaliar sua leitura a aproximadamente um metro de distância, sob iluminação semelhante à de um supermercado.

A Reds possui a metodologia Pack Impact para testar a percepção do novo rótulo

Além da auditoria técnica, a pesquisa com consumidores permite identificar como a embalagem será interpretada na situação real de compra.

Método O que avalia
Exposição rápida (3 a 5 segundos) Se a lupa e a marca são percebidas
Simulação de gôndola Escolha diante dos concorrentes
Entrevistas em E-Talks Interpretação do alerta e efeito halo
Teste de compreensão Entendimento do significado da lupa
Teste monádico A/B Intenção de compra e saudabilidade percebida
Avaliação dos Claims Entendimento dos claims mais adequados a exposição na embalagem

Os resultados devem considerar indicadores como notoriedade do alerta, compreensão correta, saudabilidade percebida e intenção de compra. Também é importante analisar diferenças entre segmentos de consumidores, considerando escolaridade, renda e perfil de saúde.

A metodologia Pack Impact permite compreender não apenas se o consumidor percebe a lupa, mas também como ela interfere na escolha do produto.

Quando começar a adequação do rótulo

A adequação deve começar antes da publicação da norma final prevista para o final de 2027. A atualização de uma embalagem envolve revisão de arte, testes, aprovações internas, contratação de fornecedores, impressão e escoamento de estoques.

Os prazos de adequação previstos na RDC nº 429/2020 já foram encerrados: 12, 24 e 36 meses após o início da vigência da norma, em 9 de outubro de 2022, corresponderam a outubro de 2023, outubro de 2024 e outubro de 2025.

Assim, os produtos atualmente comercializados devem atender às regras vigentes.

Um plano de ação pode ser organizado em quatro etapas:

  • Agora: auditar o portfólio, identificar produtos próximos dos limites nutricionais e avaliar possibilidades de reformulação.
  • Durante as consultas públicas: acompanhar as propostas da Anvisa e simular os impactos das mudanças nas embalagens.
  • Antes da impressão: testar as versões candidatas com consumidores e comparar os resultados.
  • Após a publicação da norma: planejar a transição e o escoamento dos estoques conforme os prazos estabelecidos.

Antecipar essas etapas permite que as decisões sobre embalagem sejam tomadas com base em dados regulatórios e de comportamento do consumidor, reduzindo riscos e custos de adaptação.

Perguntas frequentes

O que é rotulagem frontal de alimentos?

É o alerta nutricional obrigatório na face principal da embalagem que informa quando um alimento apresenta excesso de açúcar adicionado, gordura saturada ou sódio. No Brasil, é representado pela lupa “ALTO EM”.

Quais produtos precisam apresentar a lupa?

Produtos que atingem os limites definidos na IN nº 75/2020: 15 g de açúcares adicionados, 6 g de gorduras saturadas ou 600 mg de sódio por 100 g para sólidos e semissólidos; e 7,5 g, 3 g e 300 mg, respectivamente, por 100 ml para líquidos.

O que é o efeito halo na rotulagem frontal?

É a influência de mensagens positivas da embalagem, como claims nutricionais, que podem reduzir o impacto da advertência e aumentar o interesse pelo produto.

Como testar uma embalagem com lupa?

É necessário combinar auditoria técnica, impressão em escala real e pesquisas com consumidores. A metodologia Pack Impact da Reds ajuda a avaliar legibilidade, compreensão e intenção de compra.

Quando as empresas devem começar a se preparar para a revisão da Anvisa?

Desde já. A revisão prevista para 2027 exige acompanhamento regulatório e planejamento de embalagens, testes e estoques para evitar adaptações de última hora.